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A convivência em equilíbrio entre homens e animais resulta sempre em benefícios para ambas as partes. É isso que têm demonstrado as experiências vivenciadas por Alexandre Rossi nos diversos "projetos especiais" dos quais participou, no Brasil e em diversos outros países. Algumas delas demonstraram como animais domesticados podem auxiliar seres humanos em seu cotidiano, e outras revelaram a importância da preservação da vida selvagem, o "elo" mais frágil dessa relação, para a conservação de ecossistemas fundamentais ao meio ambiente.
Bem-estar animal, Europa, 2001
Alexandre Rossi viajou dois meses pela Europa, com a intenção de conhecer os maiores especialistas em bem-estar animal e comportamento, trocar experiências e trazer para o Brasil conhecimentos e técnicas.
Uma experiência interessante que Alexandre vivenciou foi o projeto de enriquecimento comportamental e ambiental num zoológico da Irlanda do Norte, cujo objetivo era entreter os gorilas. "Era preciso criar atividades diferentes para cada dia, esconder os alimentos em lugares inesperados, surpreender. Chegamos até a colocar um espantalho para observar a reação do gorila", explica ele.
Troca de experiências profissionais, Tailândia, 2000
Além de trocar experiências profissionais sobre comportamento e treinamento de animais, Alexandre Rossi conheceu a cultura de um povo com religião e conceitos de vida tão diferentes. Algumas curiosidades dessa experiência:
. "Os tailandeses são um povo muito pacífico, mas os vira-latas são bem agressivos, diferentes dos de outros países. Uma explicação para esses comportamentos é que grande parte dos cães que originaram os vira-latas da Tailândia são cães de linhagens agressivas".
. "Os chimpanzés são animais inteligentes, ciumentos, manhosos e agressivos. É uma delícia trabalhar com eles, mas muitas vezes você não sabe quem está treinando quem, se é o treinador que está treinando o chimpanzé ou se ele é que está sendo treinado".
. "É preciso muita calma em situações perigosas. Ao entrar em um tanque de tubarões, raias e garoupas gigantes, para alimentá-los, me informaram sobre alguns perigos e cuidados. Mesmo assim, ao entrar com a comida, os animais vêm para cima, e é difícil não passar alguns segundos de pânico. O desespero de ser mordido é tão grande que só depois percebi que eles estavam interessados é na sua própria comida. Então fui nadando e soltando a comida para eles, e assim os animais brigavam por ela atrás de mim, e não mais em cima de mim”.
Olhos amigos: Nova Iorque, Estados Unidos, 1999
O treinamento de cães-guia (geralmente das raças Labrador e Golden Retriever) para portadores de deficiência visual, auditiva e física tem várias etapas: primeiro, o condicionamento do animal; em seguida, o aprendizado das técnicas pelo portador da deficiência. Numa terceira fase, o par é colocado em contato para adaptação, sob monitoramento dos resultados. "No começo é sempre difícil, os portadores ficam nervosos, mas com o tempo as coisas passam a funcionar", afirma Alexandre Rossi, que vivenciou a técnica como voluntário na instituição Guiding Eye for the Blinding.
O treinador precisa, literalmente, "sentir na pele" os problemas enfrentados pelos portadores para poder realizar o trabalho. No caso do treinamento para deficientes visuais, por exemplo, "o treinador fica por uma semana com os olhos vendados, fazendo um laboratório para entender o que eles passam", conta ele. Seus treinamentos ocorreram durante um inverno rigoroso e Alexandre experimentou também a sensação de ficar imobilizado em uma cadeira de rodas; acabou ficando com os pés congelados, o que o fez perceber a importância de um cão-guia para quem vive essa situação.
Os cães-guia, antes de irem para um centro de treinamento, vivem em famílias que os sociabilizam. O trabalho de um cão com um portador pode durar até oito anos.
Em sua aposentadoria, é sugerido ao portador que deixe o cão desfrutar seu descanso com outra família. "Mas sabemos de pessoas que não conseguem se desfazer do velho companheiro, permanecendo com ele em casa, o que pode ser emocionalmente compreensível, mas vai certamente atrapalhar o treinamento do novo cão-guia", comenta Alexandre.
No Brasil, o uso de cães-guia ainda é restrito. "É necessário que haja maior conscientização sobre a importância desse trabalho, permitindo a entrada dos cães-guia em qualquer lugar, orientando as pessoas para que não brinquem com eles nem lhes deem comida. Além disso, as calçadas das nossas cidades estão em péssimo estado, o que dificulta o trânsito dos deficientes", lamenta Alexandre, que integra, na USP, um projeto-piloto de treinamento de cães-guia para portadores de deficiência física.
Experiência com abelhas, São Paulo, Brasil, 1995 a 1997
Além de ter importância econômica relevante, as abelhas são animais inteligentes que podem aprender a identificar cores e formas geométricas. Uma experiência rica em aprendizado sobre as possibilidades da apicultura foi vivenciada por Alexandre Rossi, quando cursava Zootecnia na USP, gerenciando uma equipe de voluntários da escola.
Ao assumir a apicultura, ele encontrou o setor com apenas três caixas de abelhas e, ao concluir sua gestão, deixou 30 caixas, com 50 mil abelhas cada e uma boa produção de mel. Alérgico à picada do inseto, Alexandre trabalhava em um ambiente com cerca de 1,5 milhões de abelhas. "Quando começava a aumentar muito o número de picadas, tinha que sair", recorda ele.
Turismo selvagem: Amazonas, Brasil, 1995
Um dos principais atrativos do turismo na Amazônia brasileira é o contato direto dos visitantes com a vida selvagem. Porém, vários cuidados devem ser tomados para que essa relação ocorra de forma "amistosa". É o que revela a experiência de Alexandre Rossi, que gerenciou um projeto especial, contratado por hotéis da região. Animais selvagens, em especial os macacos das espécies barrigudo, mico-de-cheiro e prego, perceberam que, com certa dose de agressividade, poderiam conseguir o que quisessem dos turistas. Casos de mordidas passaram a ocorrer, colocando os visitantes sob o risco de se machucarem e contraírem doenças.
"Discutimos as causas possíveis desses acidentes, além de alternativas para acostumar os animais selvagens a se aproximarem dos humanos, evitando os maus encontros", explica ele. Foi constatado, então que, na maioria das vezes, os próprios hóspedes ou funcionários dos hotéis deixavam objetos e comidas expostos, incentivando os animais a buscá-los e, com isso, se tornarem mais agressivos. Esse tipo de conduta passou a ser reorientada e os ataques dos animais foram desestimulados.
Alexandre atuou ainda em zoológicos da região, enfrentando o desafio de encontrar um ponto de equilíbrio entre a finalidade turística do local e a preservação dos animais em um "ambiente" o mais selvagem possível. Um procedimento fundamental foi evitar que os visitantes dessem comida ou mantivessem contato direto com os bichos, minimizando também o relacionamento "com os tratadores, reduzidos ao estritamente necessário".
Instinto de pastor: Nova Gales do Sul, Austrália, 1992
O uso do cachorro da raça Australian Sheep Dog em fazendas de criação de ovelhas é uma tradição na Austrália. Esses cães já nascem com o instinto de conduzir rebanhos; porém, há treinamentos para que desempenhem ainda melhor essa tarefa, atividade desenvolvida por Alexandre Rossi naquele país.
Instinto de pastorear é basicamente o mesmo da caça, com o comportamento de morder inibido. "É preciso inibir as mordidas e ensinar técnicas específicas de pastoreio aos cães". Muitas vezes, no entanto, os cães, com o tempo, voltam a morder o rebanho. Nesses casos, precisam passar por uma etapa de "recuperação" através de treinamento.
Volta ao habitat natural: Queensland, Austrália, 1990
Reintrodução de animais em seu habitat selvagem é uma atividade que requer habilidade e experiência. Como voluntário no Queensland National Park, Alexandre Rossi vivenciou intensamente esse trabalho: "É empolgante, e o segredo para o sucesso é entender a natureza como uma 'inimiga' do animal, porque ele precisará estar bem apto a enfrentá-la na luta pela sobrevivência. É vital que esteja atento o tempo todo e saiba se alimentar. Por isso, temos que prever tudo o que possa acontecer com ele." Alexandre trabalhou com diversas aves - como papagaios e Cacatuas -, além de cangurus-vermelho, coalas e ornitorrincos.
Para evitar o contato com os animais, os voluntários "vestiam" caixas de papelão. Outras vezes, entravam nos viveiros de pássaros "fazendo algazarra, para que eles passassem a ver os seres humanos como inimigos". Isso poderia garantir a sobrevivência em particular das aves que apresentam interesse comercial. Um canguru-vermelho, apesar de criado entre humanos, estava atacando as pessoas. "Descobrimos que tinha apenas ciúme. Por diversas vezes, tive de lutar com ele". Para não-iniciados, esse trabalho pode parecer coisa de louco: "O parque era quase um manicômio, com voluntários batendo panela para assustar animais, ou fugindo de bichos vestindo caixas de papelão".
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