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Inteligência animal

Revista Galileu, 10 de janeiro de 2003


Por Giovana Girardi

Cientistas comprovam o que o homem já sabia sobre o seu melhor amigo

Quem tem cachorro em casa e vive impressionado com as habilidades de seu animal já se acostumou a dizer: "é tão inteligente que só falta falar". Mas o que parece só papo de dono empolgado está ganhando embasamento cientifico. Em 2002, pelo menos três pesquisas mostraram que os cães sabem contar, são capazes de reconhecer os sinais humanos - talvez por isso tenham se tornado os melhores amigos do homem - e parece que são capazes até mesmo de "falar". Na Universidade de São Paulo a vira-latinha Sofia, de um ano, está aprendendo a manifestar fome, sede ou vontade de passear por meio de painel¬ com símbolos arbitrários. Até há pouco tempo, esse tipo de teste era feito somente em animais considerados superinteligentes, como os chimpanzés e os golfinhos.

Vira-lata aprende a "dizer" o que quer fazer
O experimento com Sofia testa até que ponto os relatos contados pelos proprietários de cachorros são verdadeiros e o quanto os cães realmente têm de inteligência, que poderia ser exemplificada como a capacidade de juntar idéias, resolver problemas e até de se comunicar com o homem. O estudo tem duas etapas: ensiná-la a "falar" e verificar suas habilidades em compreender a linguagem humana.

Sofia aprendeu como usar um painel com sinais arbitrários que representam as palavras "comida", "água", "xixi", "casinha", "carinho", "passear" e "brinquedo". O zootecnista Alexandre Rossi, que está fazendo sua dissertação de mestrado em psicologia a partir desse trabalho, explica que é possível dizer que um animal é inteligente em termos de comunicação se ele tiver flexibilidade. E parece que a cadelinha está se saindo muito bem.

Ele conta que toda vez que Sofia quer alguma dessas coisas, chama a sua atenção ou a de algum dos outros pesquisadores e aperta a tecla correspondente. "Se a gente não faz o que ela pede, vai lá e aperta de novo", diz se divertindo. E quando aparece um símbolo novo no painel, Sofia aperta e fica olhando para ver o que os pesquisadores fazem.

Esse processo funciona com um mecanismo de curiosidade, experimentação e aprendizagem. A principio o animal é estimulado a mexer nas teclas. Quando aperta uma específica os pesquisadores "ah, você quer comida" e alimentam o animal. Quando aperta outra dizem "ah agora você quer passear", e saem com a cachorrinha. "É quase como se Sofia treinasse a gente. Ela vai descobrindo que cada tecla muda o nosso comportamento e passa a controlar isso através do painel", afirma.

Segundo ele, essa idéia é baseada no aprendizado que os cães recebem em casa e que acontece sem que os donos nem percebam que estão ensinando. Ele cita como exemplo o comportamento que quase todo cachorro tem de fazer baderna com a tigelinha de comida quando está com fome. Só que o aprendizado disso surge quase sem querer. Quando ainda é um filhotinho, o cão pode um dia passar a língua, na sua tigela porque encontrou uma migalha qualquer, e o dono já faz uma interpretação. "O cão não quer comunicar nada, mas o dono vê aquilo, acha que ele está com fome e o alimenta. Isso vira um sinal, e quanto mais as pessoas acreditam que o cão é capaz de se comunicar, mais abrem essa possibilidade", explica.

A partir daí entra em cena a inteligência do animal. O cão dá um pulo de compreensão, e começa a generalizar aquele comportamento para conseguir outras coisas. Se dá certo com a tigela de comida, também pode dar com a de água. Dali a pouco ele já pega a coleira quando quer passear.

Antes de começar a pesquisa, o grupo colheu mais de 4 mil relatos de donos sobre seus cães. "Ficamos pensando se tudo aquilo era possível e com o experimento percebemos que grande parte dos proprietários diz a verdade".

Um outro estudo, publicado em novembro na revista "Science", reforça ainda mais a imagem dos donos de que seus cães entendem o que está acontecendo em volta deles, como quando estão se preparando para sair de casa e o bichinho já começa a chorar.

Uma equipe coordenada pelo pesquisador Brian Hare, da Universidade Harvard, nos EUA, demonstrou que os cães são os animais que melhor compreendem os sinais humanos. Nem mesmo chimpanzés - os animais mais próximos do ser humano na evolução - ou lobos domesticados tiveram o mesmo desempenho .

Telepatia ou cognição?
A capacidade dos cães de entender sinais humanos pode ter uma outra explicação, no mínimo, curiosa: telepatia. Essa é a opinião do controverso biólogo inglês Rupert Sheldrake, que defendeu sua idéia no livro "Cães Sabem quando seus Donos Estão Chegando".

A obra reúne dezenas de casos que mostram cachorros capazes de antecipar quando os donos estão voltando para casa. Para o biólogo, os laços afetivos que unem os animais aos seus donos criam campos mórficos que possibilitam a comunicação telepática.

Para exemplificar sua teoria, ele conta histórias como a da cadelinha Jaytee, que sempre 30 minutos antes de sua dona, Pamela Smart, chegar em casa, ia para a porta esperá-la. O curioso é que Pamela nunca chegava no mesmo horário, o que invalidaria a hipótese de a cachorra ter se acostumado a uma rotina. Sheldrake ainda criou outras variáveis. Cada dia Pamela chegava de um jeito - carro, ônibus, bicicleta, a pé -, mas ainda assim Jaytee permanecia a postos.

A explicação que Sheldrake arrumou é que a cachorrinha via "telepaticamente" o momento em que a dona decidia ir para casa e ficava a sua espera.

Mas essas teorias são totalmente renegadas no meio acadêmico. Sheldrake, que é formado em Ciências Naturais pela Universidade de Cambridge e em Filosofia, por Harvard, está abandonando a ciência, criticam seus colegas. Seu livro foi classificado como literatura de aberração intelectual" por John Maddox, ex-editor da prestigiada revista científica "Nature".

Cachorros entendem sinais humanos e sabem contar
O teste consistia em colocar os animais para descobrir, entre dois potes, qual deles tinha comida escondida. Tomou-se o cuidado de impedir que os bichos pudessem farejar o alimento. A única possibilidade de achar a comida era seguir as dicas dos pesquisadores.

No primeiro teste os pesquisadores colocaram um pedacinho de madeira em cima do pote certo. Na disputa entre 11 cães e 11 chimpanzés, os cachorros ganharam de lavada. Nove acertaram a dica, contra apenas dois acertos dos macacos. Os cães apresentaram o mesmo desempenho também contra os lobos, qualquer que fosse a dica - olhar, apontar ou dar um tapinha.

"Estes resultados sugerem que durante o processo de domesticação, cachorros foram selecionados por um conjunto de habilidades cognitivas que os capacitaram a se comunicar com os humanos", afirma a equipe no estudo publicado na "Science". Hare afirmou a GALILEU que esta aptidão pode ser uma boa explicação para os cães terem se tornado os melhores amigos do homem.

A pergunta que fica é se, assim como entendem os sinais, os cachorros também podem entender a linguagem humana. Hare disse que não sabe ainda, mas talvez a resposta possa sair do estudo que está sendo feito com Sofia. A segunda etapa do trabalho busca avaliar exatamente isso.

Busca a bola
Todo treinador sabe que alguma coisa o cachorro entende, já que é capaz de seguir comandos simples como "deita", "busca bola" etc. Segundo Alexandre Rossi, a idéia agora é descobrir como isso ocorre. "Será que ele entende 'busca' como uma ação e 'bola' como um objeto, ou será que para o cão é uma palavra só?"

Para isso, Sofia está passando por uma série de testes. A princípio foram ensinadas várias palavras, como "palito" e "bola", e alguns comandos, como buscar e apontar. Depois ela recebeu a ordem de buscar a bola várias vezes. Quando ela ouviu pela primeira vez "busca palito", foi capaz de cumprir a tarefa. "Percebemos que ela entendeu a frase de um modo semelhante à nossa e foi capaz de compreender comandos múltiplos. Juntou duas informações e executou o comando em seguida".

A próxima etapa agora é dificultar ainda mais o processo. O coordenador da pesquisa e professor de psicologia experimental da USP César Ades quer acrescentar uma terceira variável ao exercício: um adjetivo. Em vez só de buscar uma bola, Sofia terá de decidir entre a grande e a pequena. "Vamos juntar uma ação, um objeto e uma qualidade. Se ela for capaz de reagir com uma boa taxa de acerto aí sim eu poderia falar em um estágio avançado de inteligência", declara.

Essa aliás é uma grande discussão quando se fala das habilidades de um animal: diferenciar o que é inteligência do que é aprendizagem e condicionamento. Ades afirma que existe inteligência, ou cognição, como preferem dizer os pesquisadores, quando o animal é capaz de juntar idéias. "Isso extrapola um condicionamento simples feito com base em estímulo e resposta. O nosso desafio é mostrar que o animal é capaz de executar operações cognitivas complexas. Tentamos complicar a vida do bicho e ver até onde ele é capaz de resolver".

Outra definição para cognição é a capacidade do animal de resolver um problema sem experiência prévia. É também sua capacidade de ser flexível - agir da melhor forma possível em um contexto novo.

Pensando nisso, o inglês Robert Young, professor de comportamento animal da PUC-Minas, de Belo Horizonte, resolveu testar cães diante de uma situação inédita para verificar qual seria a reação. Ele pôs os bichos para observar um prato com biscoitos e ficou alterando a quantidade para ver se eles conseguiam notar a diferença, ou seja, contar.

Primeiro ele deixou que os animais vissem o prato com um biscoito. Young então tampou o local e deu a entender que estava colocando mais um biscoito no prato. Em seguida destampou a área, deixando o animal olhar os dois biscoitos. No segundo teste, ele mostrou novamente o biscoito que estaria sendo acrescentado, mas não o pôs no prato. Ao ver só um biscoito, o cão estranhou e ficava mais tempo observando a situação inesperada.

No terceiro teste, o pesquisador adotou o mesmo procedimento, mas dessa vez, ele colocou três biscoitos para o cão observar. Percebeu-se então que ele ficava ainda mais surpreso, olhando o prato por mais tempo. Esse teste é o mesmo usado em bebês de cinco meses para avaliar a sua capacidade matemática.

O pesquisador afirma que a capacidade de contar vem dos lobos, de quem os cães descendem. "Como caçam em grandes bandos e dependem de cooperação, é importante saber quantos são amigos e quantos são inimigos", diz.

Cérebro plástico
Young explica ainda que o cérebro dos cachorros é muito parecido com o dos filhotes de lobos. É mais plástico, flexível, fazendo com que o animal tenha mais aptidão para aprender. "Talvez tenha ocorrido isso no processo de seleção e tenham prevalecido os animais com habilidade para aprender as coisas rapidamente".

É dos lobos, aliás, que vêm as características que os cães têm de lealdade e respeito aos homens. Dois estudos recentes publicados na "Science" mostram que os cachorros descendem de lobos domesticados pela primeira vez na Ásia entre 40 mil e 15 mil anos atrás. Esses animais tiveram de aprender a entender o ser humano para ser capaz de viver com ele. Para César Ades, foi a capacidade cognitiva dos cães que permitiu essa adaptação.

Isso deve ter sido fácil, já que os lobos vivem em sociedade muito bem, compreendem a hierarquia e são fiéis ao seu líder, explica o pesquisador Eduardo Ottoni, especialista em comportamento animal na USP. "Não é por acaso que o cachorro é a espécie mais antiga a se relacionar com os homens. Na cabeça dele não somos uma outra espécie, mas membros de um grupo. Ele nota que é subordinado na hierarquia e se encaixa bem nesse papel. Hoje é um produto da relação com o homem".

Para navegar
. Pesquisas sobre cognição animal
http://www.pigeon.psy.tufts.edu/psych26/alinks.htm

. Sites de comportamento animal
http://users.erois.com/mandtj/behavior/behavior.html

Para ler
. "Cães Sabem quando seus Donos Estão Chegando", Rupert Sheidrake.
Objetiva. 2000
. "The Truth about Dogs", Stephen Budiansky. Viking. Estados Unidos. 2000
. "The Dog's Mind", Bruce Fogle. Howell Book House, Estados Unidos. 1990



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